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Para quê fazer a cama, se a vou desfazer logo à noite?
Armanda Zenhas


Numa família em que todos colaboram no trabalho familiar, desenvolve-se um sentimento de colaboração, de partilha e de responsabilidade individual e coletiva. Alguma vez experimentaram debater numa turma de um qualquer ano de escolaridade quem colabora nas tarefas domésticas e que tarefas lhe estão incumbidas? Provavelmente encontrarão uma maioria de crianças ou jovens que não participam nessas lides, alguns que arrumam o quarto a contragosto, se forem mesmo obrigados, e um número significativamente inferior que tem responsabilidades definidas, variáveis de acordo com a idade, que podem ir de pôr a mesa até fazer compras e tomar conta de irmãos mais novos, passando por manter o quarto arrumado. O contributo dos filhos nas tarefas familiares é favorável ao seu desenvolvimento ou, pelo contrário, um obstáculo ao exercício do seu direito de terem tempos livres geridos por si? Na minha opinião, aplica-se aqui a regra da "conta, peso e medida". No quotidiano das crianças e dos jovens, é necessário haver tempo para ir à escola, para estudar em casa, para lazer gerido autonomamente, para colaborar com a família nas tarefas domésticas, para praticar desporto ou outras atividades. Claro que nem sempre tudo isto cabe num único dia. É óbvio também que "a conta, o peso e a medida" de cada um destes (e, eventualmente, de outros) tipos de atividades depende de muitos fatores, entre os quais a idade. Numa família em que todos colaboram no trabalho familiar, desenvolve-se um sentimento de colaboração, de partilha e de responsabilidade individual e coletiva. Todos podem contribuir de forma proporcional às suas possibilidades, com tarefas regulares e com disponibilidade para a realização de outras extraordinárias. Por exemplo, as crianças podem aprender, desde pequenas, a ter os seus brinquedos arrumados, a levar a sua roupa suja para o cesto, a ajudar a pôr a mesa. Crianças um pouco mais velhas podem contribuir com a responsabilidade de manter o seu quarto arrumado, com a cama feita e os materiais escolares sempre organizados, para além de outras tarefas. Cozinhar ou lavar roupa são exemplos de trabalhos cuja aprendizagem e prática também deve estar contemplada no processo de crescimento. O sociólogo francês Bernard Lahire diz que o mundo doméstico se caracteriza por uma ordem material, afetiva e moral que pode ter um papel importante na atitude das crianças face à escola. A distribuição de tarefas adequadas a cada um, num ambiente afetivo, favorece o desenvolvimento do gosto pela organização e pelas coisas bem feitas, do esforço e da perseverança para alcançar objetivos, fundamentais para atingir sucesso na escola e noutras esferas da vida. Como explica Lahire, a regularidade das atividades, os horários, a arrumação das coisas produzem estruturas cognitivas ordenadas e capazes de ordenar, gerir e organizar os pensamentos. Daniel Sampaio chama "ensino incidental" ao aproveitamento pelos pais e educadores desses "pequenos momentos do quotidiano", que considera serem "ocasiões em que os seres em desenvolvimento crescem em competência e confiança, e aprendem a equilibrar as suas necessidades com as dos outros". Acrescento ainda uma vantagem de relevo: o desenvolvimento da autonomia. Num tempo em que as fronteiras se tornaram mais ténues e que as crianças e os jovens têm o mundo por horizonte, a facilidade de terem hoje tudo feito pelos pais pode ser a dificuldade de amanhã se tornarem autónomos e irem trabalhar e viver para longe da família ou até para fora do país. Quem é a mãe que ainda não ouviu como resposta de um filho, quando lhe diz que faça a cama: "Para quê, se a vou desfazer logo à noite?"? E quantas mães não acabam por se resignar a fazer elas próprias a cama dos filhos para evitar discussões?

Bibliografia: Lahire, B. (2004). Sucesso escolar nos meios populares: As razões do improvável. S. Paulo: Ática. Sampaio, D. (2012). O ensino incidental. Revista do jornal Público, de 25 de novembro de 2012.

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